Crônica da reminiscência

Publicado em 3 de junho de 2021 por casagrande

Crônica da reminiscência

Nessa ensolarada matina acordei e dei de cara com meu amado Vinicius (o de Moraes) incorporado em meu corpo emocional. Ato sequente, busquei no YouTube alguma seleção de suas canções.

O som das canções, os ritmos, a música, enfim, na interpretação de Vinicius + Toquinho completaram meu universo e me deixei levar pela singeleza da praia de Itapuã daquele tempo (hoje, é um lugar terrível). Não deixei que o hoje ocupasse lugar. Bani com veemência a realidade do agora e mergulhei de vez na reminiscência de meu tempo de garoto, quando Vinicius criava sua poesia na simplicidade dos movimentos cotidianos.

Visitei (quase solto um assovio) a Garota de Ipanema, com a consciência de que essa garota linda e graciosa se multiplicou por muitos milhares de outras lindas mulheres que vão, despretenciosamente gingando em direção ao mar…

Entrei na roda do terreiro e dancei junto com a graça incorporada em “meu pai Oxalá”, repetindo enlevado “Meu pai Oxalá é o rei, venha me valer”. Mal saio da roda e bato cabeça para Mãe Menininha do Gantois, recebendo em troca sua bênção enfeitada em sorriso ameno e docilidade.

Saio do terreiro embevecido, perdido, quase volitando entre orixás quando avisto Maria, que “era uma boa moça, das bandas lá do Gantois…”, triste a andar pela praia, ainda à procura de seu homem, que Iemanjá levou para o mar…

Novo toque e lá vou visitar outros versos e versículos da poética de Vinicius, no evangelho que instrui a vivência na simplicidade e a beleza da vida: “Você que só ganha pra juntar, o que é que há, diz pra mim o que é que há…”. Por um instante vejo em profundidade o vazio que há no cheio da Bolsa. Me toco e me deixo tocar no fundo da alma por essa simplicidade de apenas viver…

Deixo para traz Bolsa e capital e me vou embalado pela canção: “Eu não ando só, só ando em boa companhia, com meu violão, minha canção e a poesia…”.

E assim transcorreu minha entronização neste três de junho, feriado de Corpus Christi, quando a alma de Vinicius abraçou e se fundiu à minha. Já pela altura do café da manhã me dei conta que Vinicius, como o Cristo, ensinou em prosa e verso a mesma lição: amar incondicionalmente: “…mesmo o amor que não compensa vale mais que a solidão…”, viver em simplicidade e alegria, dando-se a todos que precisem de conforto físico, espiritual, moral.

Enfim, termino esta crônica da reminiscência trazendo para essa realidade terrível que estamos vivenciando, um tanto do evangelho de Vinicius de Moraes, pleno de amor, de perdão, de carinho, de encanto. Estendo a onda que me invade e desejo, leitor, que teu dia, semana, mês, ano, seja todo banhado nesse mar de amor e paz.

Palmas, Tocantins, Brasil, aos 03 de junho de 2021.

Osmar Casagrande

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