Imortalidade para ricos

Dídimo Heleno

Richard Dawkins, o biólogo britânico, autor de diversos livros que se tornaram best seller, entre os quais “O gene egoísta” e “Deus, um delírio”, foi quem, em 1976, ao lançar o seu estudo sobre genética, cunhou o termo “meme”, hoje tão difundido por meio da internet. Para o cientista, o fato de alguém nascer é um acaso que merece agradecimento, afinal, entre bilhões de espermatozoides, você foi o único que conseguiu perfurar o óvulo, sem contar que certamente enfrentou diversos contratempos durante os nove meses de gravidez da sua mãe, além do fato de ser um sortudo que não foi abortado e nem escapou dos testículos do seu pai durante uma masturbação, o que o teria feito descer por um ralo qualquer de banheiro. Portanto, comemore, você é um privilegiado.

Apesar de tudo isso, depois dessa enorme competição e um tanto de sorte, você ainda não está completamente satisfeito, afinal é ávido pela imortalidade, não quer apenas esta vida material, almeja algo maior no campo da espiritualidade, quer se transformar em um ser infinito e está certo de que é filho de um deus.

Se acontecer um dia o que o israelense Yuval Noah Harari prevê em seu livro “Homo Deus”, nós seremos amortais. Segundo ele, por meio da nanotecnologia será possível criar espécies de robôs minúsculos que serão injetados em nossos corpos com o objetivo de reconstruir os tecidos atingidos por doenças. Só morreremos de traumas causados por acidentes. Mas isso será resolvido quando atingirmos a imortalidade. Novamente a nanotecnologia entrará em ação e trará à vida os corpos dilacerados.

Isso, claro, ainda está longe de acontecer e você que está lendo este texto não irá se beneficiar de tão alvissareiras possibilidades. Por outro lado, o mesmo Harari diz que isso será também um problema, pois somente os muito ricos teriam acesso a esse tipo de tratamento, o que faria com que apenas os abastados atingissem a imortalidade, enquanto a patuleia continuaria morrendo.

Bem, nesse caso estaríamos diante de um impasse. Quem viesse a se tornar imortal não teria mais necessidade de acreditar na vida pós-morte e, portanto, não haveria qualquer motivo para continuar apostando as fichas num salvador e também não perderia tempo frequentando templos religiosos em busca da vida eterna. Ora, se eu não vou morrer, qual o sentido de ficar puxando o saco de santos e deuses? A morte sempre foi o grande trunfo das religiões.

Os pobres, que não teriam acesso à amortalidade e imortalidade, continuariam acreditando na vida eterna após a morte, nas velhas e boas orações. O mundo seria dividido entre aqueles que irão para o céu ou inferno e os que permanecerão aqui para todo o sempre. Pela primeira vez faria sentido as palavras bíblicas, que dizem ser mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus. Segundo a teoria de Harari, o rico do futuro não entrará no céu não porque não mereça, mas porque não morrerá. Ficará aqui, lépido e fagueiro, usufruindo de toda a beleza do nosso planeta.

Entretanto, surge um outro problema: como somente os pobres morreriam, não haveria espaço aqui na Terra capaz de abrigar os ricos imortais, que continuariam a se reproduzir. Contudo, as previsões são no sentido de que até lá o homem encontrará condições de habitar outros planetas, luas, estrelas e cometas. Ou seja, nas longínquas eras vindouras somente os pobres é que continuarão a se importar com a vida além-túmulo. E ainda dizem que dinheiro não traz felicidade.

Palmas,18.09.2020.

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