Mãe, posso brincar de cozinhadinha?

Hoje, nessa chuvarada, cozinhando uma panelinha de arroz para o meu almoço visitei um recorte da minha infância e sorri, encabulada.
Com a molecada da vizinhança, em panelinhas de alumínio queimado, pequenininhas, cozinhávamos, vez ou outra, a nossa própria comida. Eram terreiros sombreados. A fogueirinha crepitando. Uma euforia incontida.
Era coisa rara as nossas mães deixarem brincar de cozinhadinha. Tinha o perigo do fogo, tinha a carência em tempos difíceis. Não dava para “gastar” arroz em brincadeiras de criança.

  • Mãe, posso brincar de cozinhadinha? Ela, com os pés dançando ritmados no pedal da máquina, às vezes, deixava.
  • Cuidado com o fogo. Ralhava! Que alegria sentíamos!
    Corríamos à lata de arroz, metíamos a pequena cuia dentro e despejávamos na barra da saia mesmo, sem desperdiçar um grão. A cuia feita da metade de um côco era a medida perfeita. Lá em casa, dez pessoas, 3 cuias. Não havia ida duas vezes à panela. Mesmo assim, nossas mães deixavam. Raramente, mas deixavam. Saíamos em disparada. Catar gravetos, fazer o fogareiro com 2 tijolos lado a lado. Era bom encostá-los na parede do barracão ao fundo do quintal. Ali já tinha uma grande mancha preta de fumaça, denunciando nossas traquinagens. A panelinha de alumínio batido, com o punhadinho de arroz dentro, temperado com um dente de alho machucado com 1 pimentinha no velho pilão de madeira, exalava o cheiro particular de uma apetitosa brincadeira de quintal. O mesmo cheiro que hoje me encabulou. Mãe, posso fazer cozinhadinha?
    Que bom seria fazer uma cozinhadinha com as amigas. Mas é hora de cuidado. Tempos difíceis.

Lita Maria – março/2021
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