Arbeit macht frei

Amo a língua portuguesa e somente uma razão maior me levou a colocar nessa crônica um título em alemão. Explico: o título-frase é uma expressão, cunhada por Lorenz Diefenbach em um romance publicado em 1873. Contudo, entrou para a história como símbolo da técnica de ressignificação nazista, já que estava estampada sobre o pórtico de vários campos de concentração na Segunda Guerra Mundial. A tradução, simples, é: “O trabalho liberta”.

Neste primeiro de maio de 2021 vivemos, particularmente no Brasil, um redimensionamento daquela ideia nazista. Certamente que o modo de execução daqueles marcados para morrer não é o das câmaras de gás, mas sim, a conclamação à morte está direcionada a uma classe: a classe obreira, os trabalhadores, os que põem a funcionar seus braços, pernas, cabeças e “metem a mão na massa” na construção da economia deste país-continente. Porque os trabalhadores é que são conclamados a sair de suas casas, suas tocas, seus casebres, de sob as marquises para, em conjunto, em comunhão de esforços, aos grupos, aos magotes, em rebanhos, realizar as coisas da construção da economia, seja nas lojas, nas lavouras, nas construções, nas indústrias, nas igrejas.

São esses despossuídos os convocados ao trabalho que a voz oficial quer tornar trabalho forçado, afrontando todas as recomendações da ciência e da lei. Pode parecer partidário que se aponte os trabalhadores como público-alvo de chamamento à aglomeração e à morte, mas não. Porque os que usufruem da construção da economia, esses não precisam sair de suas casas, pois que controlam tudo pelo computador, perseguindo planilhas, metas, relacionamento com os stakeholders da ponta da pirâmide. Esses não se dão ao trabalho. Contrariamente, se isolam cada vez mais e demandam mais e mais serviços daqueles que põem o corpo em movimento para atender suas necessidades, do remédio à pizza, dos alimentos ao pó branco com que fazem pão ou sonhos. ou, como variante, quando bate o fastio, se isolam em seus sítios, suas fazendas, seus paraísos tropicais, longe da gentalha e da aglomeração.

Nos últimos dois anos o país está vivendo uma viagem no tempo, em que, a cada mês que se avança no calendário, regredimos uma década em educação, em saúde, em economia, em liberdade, em segurança. Avançamos velozmente no grau de miséria e fome do povo brasileiro. Com a pandemia, chegamos à década de 1940 e aos campos de concentração, ainda que agora os campos de concentração da população sejam os ônibus urbanos, os trens, os metrôs da vida, os ambientes de trabalho. Enquanto isso, os eleitos Genocidas impossibilitam o censo e compreende-se o porquê: os números mostrariam (invoco o Deus acima de tudo, para afirmar que mostrarão!) o tamanho, a escuridão e o grau de imundície do abismo em que foi atirado esse país que todos amamos e essa nossa nação, multifária, colorida, rica em cultura na integração de culturas de todo o mundo.

Dos ambientes de concentração atuais para a morte há apenas um curto corredor, onde os candidatos recebem dos Genocidas drogas que matam em vez de curar, tal e qual os que nos campos de concentração nazistas recebiam gás mortal enquanto esperavam receber água para lavar seus corpos. E lá vão, sendo abatidos nesse corredor, com as falsas curas, a falsa fé, com a ausência do oxigênio que os mata por sufocação.

Em um aspecto a função genocida que nos atinge difere daquela nazista. É que o povo alemão tem o enorme mérito de ser meticuloso em suas realizações, qualidade que abertamente invejo, e nos campos de extermínio executavam tantos condenados quantos os fornos conseguiam cremar e no Brasil de hoje não temos crematórios suficientes, nem caixões, nem… Só o que nos sobra é a voz oficial do programa genocida a vociferar pelos alto falantes eletrônicos: “Voltem ao trabalho, voltem ao trabalho, arbeit macht frei”.

Autor