Dídimo Heleno

Augusto dos Anjos foi um poeta inusitado, que enfrentou o tema da morte com destemor e ousadia. Aliás, ele mesmo um homem doente, andou abraçado com a finitude durante todos os parcos trinta anos em que viveu. Esse paraibano nascido no final do século XIX fez dos vermes, das pústulas, das feridas e do lúgubre o seu lugar na poesia. Utilizou termos científicos para amenizar sua verve doída e, apesar de tudo isso, conseguiu encantar com um único livro, “Eu”.

Augusto parece ter sido enviado das profundezas da existência para nos falar do lado mais sombrio, da alma impotente, do espírito inquieto e de todas as borrascas de que é feita a vida. Para ele, a sombra é uma “universitária sanguessuga, que produz, sem dispêndio algum de vírus, o amarelecimento dos papiros e a miséria anatômica da ruga”.

Os túmulos, as macas dos enfermos, os hospitais, as corujas, o ar quase rarefeito da Serra da Borborema dos seus poemas nos leva a passear por esse purgatório da poesia. Ler Augusto dos Anjos é transitar por lugares nunca antes imaginados. Um dos grandes protagonistas dos seus escritos sublimes é o verme, “este operário das ruínas, que o sangue podre das carnificinas come, e à vida em geral declara guerra, anda a espreitar meus olhos para roê-los, e há de deixar-me apenas os cabelos, na frialdade inorgânica da terra”.

Os mais sensíveis dirão que Augusto dos Anjos, com esse nome paradoxalmente cândido, é inóspito e de difícil digestão. Mas é só engano. Ele consegue mostrar beleza mesmo falando do feio, do lodo, da lama. Atinge os píncaros da imaginação ao descrever de onde viria a ideia: “Vem do encéfalo absconso que a constringe, chega em seguida às cordas da laringe, tísica, tênue, mínima, raquítica, quebra a força centrípeta que a amarra, mas, de repente, e quase morta, esbarra no mulambo da língua paralítica”.

Foi Augusto dos Anjos que nos mostrou ser o beijo a véspera do escarro e, portanto, a mão que afaga é a mesma que apedreja. Ele fez do pessimismo o seu instrumento de trabalho e cedo partiu para encontrar a morte, “essa carnívora assanhada que, a primeiro de janeiro sai para assassinar o mundo inteiro, e o mundo inteiro não lhe mata a fome”. Num dos seus poemas, ele pede ao médico que corte a sua singularíssima pessoa, afinal “que importa a mim que a bicharia roa todo o meu coração depois da morte?” E completa, com desilusão: “Ah! Um urubu pousou na minha sorte!”

Quando o pai do poeta ficou doente, ele desabafou num poema: “Que coisa triste! O campo tão sem flores, e eu tão sem crença e as árvores tão nuas, e tu, gemendo, e o horror de nossas duas mágoas crescendo e se fazendo horrores!” Logo que a doença venceu e o pai morreu, ele registrou: “Madrugada de treze de janeiro. Rezo, sonhando, o ofício da agonia. Meu pai nessa hora junto a mim morria sem um gemido, assim como um cordeiro!”

O biógrafo do poeta, Órris Soares, diz ser o livro “Eu” uma reunião de sofrimentos, verdades e protestos. O seu autor sente as dores que dilaceram os homens. Para ele, todos os poemas se vestem do mesmo tom de beleza sombria e Augusto sempre molhou sua pena “na chaga aberta do coração”. Foi um gênio que nem precisou viver tanto e com apenas um único livro deixou sua marca no mundo.

Palmas, 16.09.2020.

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